PROPOSTA - PARTE 27 E 28 - DE ALLAN PERCY,DO LIVRO: OSCAR WILDE PARA OS INQUIETOS


Viagem Cultural a Laguna  - Foto: Profª. Cleide Tamanini Bogo

27 – Nós devíamos simpatizar com a alegria. Quanto menos falarmos das chagas da vida, melhor.
O sociólogo francês Guy Sorman define o medo da vida e do futuro como um dos grandes obstáculos que nos impedem de aproveitar os prazeres da vida. Quando focamos as alegrias do presente, nossos sentimentos e nossa consciência se conectam ao bem-estar do momento e o futuro se apresenta leve diante de nós.
Em contraposição, as pessoas que veem apenas o lado sombrio de tudo acabam não só amargurando seu presente como também prognosticando desgraças. Suas expectativas condicionam seus atos, que fazem do futuro exatamente aquilo que haviam previsto. Esse ciclo é conhecido como “profecia autorrealizável”. Sorman a explica citando uma das obras mais célebres de Shakespeare:
Macbeth é um fiel súdito de seu rei. Um dia, lhe predizem que ele está destinado a governar a nação. Quando o homem conta a profecia à esposa, desperta sua ambição, que desencadeará a tragédia. Estando o rei hospedado em sua casa, a mulher convence Macbeth a assassiná-lo. Já coroado, lhe é revelada outra profecia: quem o sucederá no trono será seu filho ou o de um amigo. Shakespeare então fará com que tudo flua em direção ao sangrento final predito, que não aconteceria se ninguém houvesse acreditado nele e agido de forma a torná-lo possível.
 Muitas tragédias têm origem numa profecia autorrealizável que nos condiciona e limita nossa liberdade de ação.

28 – A tragédia da velhice não consiste em ser velho, mas em ter sido jovem.
O retrato de Dorian Gray, provavelmente a obra-prima de Wilde, tem como protagonista um belo jovem cujo retrato emoldurado envelhece, ao passo que ele mesmo permanece intocado pela ação do tempo. Aos poucos, o quadro começa a refletir a decadência física e moral de Dorian.
Esfregou os olhos, aproximou-se do quadro e o examinou de novo. Não havia sinais de nenhuma mudança, no entanto não havia dúvida de que a expressão se alterara. Não era apenas impressão sua. Estava terrivelmente óbvio. Afundou na poltrona e começou a pensar. De repente, veio-lhe à mente o que tinha dito no ateliê de Basil Hallward no dia em que o quadro fora concluído. Lembrava-se perfeitamente. Havia expressado seu desejo doentio de que ele mesmo pudesse continuar jovem e de que o quadro envelhecesse; de que sua beleza permanecesse inalterada e de que seu rosto na tela suportasse a carga de suas paixões e pecados; de que a imagem pintada carregasse os traços do sofrimento e do pensamento e de que ele mantivesse o frescor e o encanto quase conscientes de sua adolescência. Seu desejo não poderia ter se cumprido... Coisas assim são impossíveis. Pensar nisso já era uma monstruosidade. No entanto, ali estava o quadro à sua  frente, com um toque de crueldade na boca.
No final, apesar de vivermos num mundo em que tanto se busca a juventude eterna, como na história de Dorian Gray, continua sendo pior esconder que simplesmente aceitar a idade.

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