KAFKA PARA SOBRECARREGADOS - DE ALLAN PERCY - PARTE 35 e 36


35 – Eu sou o romance. Eu sou minhas histórias.
Nos cursos de escrita criativa, um dos principais conselhos que os aspirantes a romancista recebem é: “Escreva seu próprio romance, não o dos outros.”
Com isso, o professor quer dizer que não faz sentido imitar o que outros pensaram, sentiram ou experimentaram, pois a escrita é um ato criativo individual, como a arte de viver.
Viver é algo estritamente pessoal.
Podemos admirar pessoas que nos servem de exemplo para elaborarmos nossos próprios projetos. Podemos até discutir com elas nossas ideias e escutar seus conselhos, mas as decisões fundamentais de nossa vida apenas nós podemos tomar.Ninguém pode percorrer o caminho em nosso lugar.
Por isso, assim como um escritor é as suas histórias, nós também devemos assumir o papel de roteiristas de nossa própria vida.

36 – Não precisa sair de casa. Limite-se a sentar-se à mesa e escutar.
Franz Kafka dizia que para alcançar a sabedoria basta “escutar, estar tranquilo, silencioso e solitário. Livremente, o mundo se oferecerá a você sem máscara, sem escolha, se abrirá em êxtase a seus pés”.
Esta visão está de acordo com a de Blaise Pascal, que afirmava que todas as desgraças dos homens procedem de uma só coisa: não saberem ficar sozinhos, repousando tranquilamente num quarto fechado.
Este físico, matemático, filósofo e escritor francês acreditava que há uma terrível contradição entre a realidade do que o homem é e aquilo a que ele aspira. O homem aspira à felicidade e só encontra o tédio. Aspira à verdadeira justiça e vê que não a tem. Aspira ao infinito e vê que é mortal. Ele está dividido, sua vida é uma tragédia contínua.
“O homem sente nostalgia de uma felicidade perdida”, dizia Pascal. “A alma do ser humano é um abismo infinito que só o infinito pode preencher.”
Kafka sabia que, após uma jornada de tarefas e problemas, no silêncio e na solidão se encontra essa conexão com o infinito.

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