KAFKA PARA SOBRECARREGADOS - DE ALLAN PERCY - PARTE 45 E 46


45 – Não há nada mais feliz do que crer num deus do lar.
De 1920 A 1922 Franz Kafka trocou cartas com uma mulher chamada Milena. No início, era um romance epistolar alegre e cheio de vida. Mas com o tempo as correspondências se tornaram o canal de um amor impossível e sofrido:
Às vezes tenho a sensação de que estamos num quarto com duas portas, uma diante da outra, e cada um de nós pega a maçaneta de uma das portas. Um de nós pisca e o outro já está atrás de sua porta. E basta que o primeiro pronuncie uma só palavra que imediatamente o segundo fecha a porta atrás de si e não pode ser visto. (...) Se o primeiro não estivesse como o segundo, se estivesse calmo, se pretendesse apenas não olhar o outro, se ele lentamente deixasse o quarto, mas em vez disso ele faz exatamente a mesma coisa que o outro em sua porta, às vezes até ambos estão atrás das portas e o belo quarto está vazio.
Esta é uma parábola maravilhosa sobre os conflitos de um casal e sobre como poderíamos resolvê-los.

46 – Somente tremor e palpitação foram sua resposta à afirmação de que talvez “possuísse”, mas não “era”.
Após citarmos Cyrulnik e Frankl, vamos voltar a falar de Erich Fromm, que nasceu no seio de uma família judia ortodoxa de Frankfurt, na Alemanha, em 1900.
Este psicólogo, autor de obras de grande sucesso, considerava, já naquela época, que o homem está tão dominado pela sociedade de consumo que ele mesmo se trata como um produto, como um capital que deve ser investido. Assim como Kafka, Fromm teve uma infância difícil. Seu pai era um homem de caráter irascível e sua mãe, uma mulher frágil que volta e meia caía em estados depressivos. A eclosão da Primeira Guerra Mundial e a loucura coletiva que levou a juventude alemã a se aniquilar nas trincheiras impressionou o jovem, que se surpreendeu com a reação dos rapazes que abriram mão de pensar livremente para se deixar levar ao matadouro pelas mãos implacáveis de dirigentes egoístas e irresponsáveis.
Erich Fromm chegou à conclusão de que o homem evita a liberdade submetendo-se ao poder dos outros – seja por meio de ideais ou do consumo –, tornando-se dócil e obediente. A maior revolução, para além dos grandes movimentos sociais, é deixarmos de possuir coisas e levantar bandeiras para tomar posse de nós mesmos e determinar o rumo de nossa vida.

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