KAFKA PARA SOBRECARREGADOS - DE ALLAN PERCY - PARTE 51 E 52



51 – Não posso levar o mundo nos ombros se mal suporto o peso do meu casaco de inverno.
Esta frase pertence a uma carta que Kafka escreveu a Milena no fim da vida, expressando o desejo de recuperar seu passado judeu. Ele justificava assim sua incapacidade de levar a cabo um projeto que nunca concluiu.
O guru indiano Osho dizia que é difícil nos livrarmos do passado pela simples razão de que nosso passado somos nós mesmos. Quando nos perguntam quem somos, a resposta é um conjunto de lembranças. Nosso próprio nome é o nome que nossos pais nos deram.
Para nos livrarmos do passado é preciso olhar para a frente e decidir que um determinado fato, mesmo que tenha acontecido, nada tem a ver com o que somos agora.
O mesmo raciocínio serve para a família que nos amou, que nos criou, mas que não somos nós.
O filósofo Alan Watts afirma que é o presente que determina o passado, e não o contrário. O tempo flui do presente para o passado. Estamos ligados a uma corrente de acontecimentos que se diluem com o passar do tempo, como o rastro que um navio deixa na água ao navegar. À medida que a embarcação avança, a espuma vai se dissipando.
O importante é ter claro que não é o rastro que define o curso do navio, e sim as mãos que o pilotam.

52 – Teoricamente, há uma chance de felicidade plena: crer no indestrutível que há dentro de nós e não aspirar a isso.
Há uma fábula indiana sobre um filho primogênito que abandonou o lar porque os pais estavam prestes a casá-lo com uma jovem, sem que tivessem perguntado a sua opinião.
O rapaz só a vira uma vez, e ela lhe parecera feia. Ele também não era muito bonito, mas... Um dia, decidiu fugir. Um ano depois, chegou a uma terra distante, em que as mulheres eram especialmente belas; ele lhes parecia atraente porque era exótico. Procurou e procurou a amante perfeita. No entanto, apesar de ser considerado bem-apessoado, nenhuma moça se aproximou dele. Ele não conseguia entender por quê. Viajou então para outros lugares em busca da amante perfeita. Novamente, nenhuma mulher se aproximou dele. Continuou a viajar e envelheceu sem ter conhecido a mulher de seus sonhos. Cansado de vagar pelo mundo, retornou à sua cidade natal. Ninguém o reconheceu. Viu uma mulher lendo à sombra de uma árvore, falou com ela e se sentiu reconfortado com a conversa. Olhou-a nos olhos e percebeu que teria desejado compartilhar a vida com ela. De repente, reconheceu naquele rosto a mulher que ele desprezara anos atrás e arrependeu-se. Esta fábula nos mostra que às vezes desprezamos o que temos à mão justamente porque está tão perto que não somos capazes de vê-lo.

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