KAFKA PARA SOBRECARREGADOS - DE ALLAN PERCY - PARTE 59 E 60


59 – Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído.
Segundo a tradição tibetana, Shambala é um reino mítico, oculto em algum lugar inalcançável da cordilheira do Himalaia. É um lugar que apenas alguns eleitos podem conhecer.
Shambala é o local onde habitam seres perfeitos que têm nas mãos o leme do destino dos seres humanos. Formado por oito regiões, tem a forma de uma flor de lótus com oito pétalas e é guardado por seres muito poderosos.
No início do século XX, um comandante britânico que explorava o Tibete avistou na neve um homem muito alto, com vestes brancas e cabelos longos. Ao perceber que tinha sido visto, o homem misterioso deu um salto e desapareceu na paisagem. Quando o comandante explicou o que vira, os tibetanos não estranharam: eles sabiam que o explorador topara com um dos guardiães de Shambala.
Para outros, no entanto, Shambala é um estado mental acessível a todos nós após o processo necessário de purificação. O paraíso – a mente tranquila – sempre está ali. Para regressar ao reino da felicidade, devemos apenas nos desfazer de todos os hábitos negativos que nos extraviam do caminho. 

60 – Aquele que renuncia ao mundo também renuncia ao mundo dos homens.
Há um conto sobre um ermitão que todos os dias se sentava numa pedra à entrada de sua gruta. Era agradável receber os raios de sol daquelas horas da manhã.
O burro que costumava vir comer a relva acabava de chegar.
– Bom dia, burro – cumprimentou-o.
O animal, surpreso com o fato de aquele ermitão ter resolvido dirigir-lhe a palavra pela primeira vez em treze anos, deixou cair o mato que acabara de pôr na boca.
– Bom dia, ermitão – respondeu o burro. – Por que você decidiu falar?
O ermitão disse que já estava mais que na hora. O asno lhe perguntou o que o fizera abandonar o barulho da cidade para buscar a solidão das montanhas. O eremita respondeu que ele tivera um alto cargo público, mas que escolhera enfrentar o maior desafio: viver afastado do mundo.
– Você mente – disse o burro. – Está aqui porque é mais fácil levar a vida distante dos problemas do mundo do que entender-se com todos e com cada um.
Ao ouvir aquelas palavras de um animal associado à estupidez, o ermitão decidiu acabar com o isolamento e voltou à civilização a fim de testar a si mesmo.
Não há desafio espiritual maior do que a convivência com os que são diferentes de nós.

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